O cenário político do Tocantins ganhou novos contornos nas últimas semanas com um movimento que, para muitos observadores, soa no mínimo contraditório: o deputado federal Vicentinho Júnior, um dos nomes mais alinhados ao bolsonarismo no Estado, tem buscado espaço na chapa majoritária que deve receber o apoio direto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A articulação parece destoar não apenas da trajetória recente do parlamentar, mas também da configuração ideológica da aliança em formação. Afinal, não é novidade que Laurez Moreira e Irajá Abreu despontam como os principais nomes dessa frente de centro-esquerda, com costuras políticas avançadas e chancela petista praticamente consolidada. O que intriga analistas é a tentativa de Vicentinho de se inserir nesse arranjo.
Sem espaço entre os bolsonaristas
O movimento do deputado ocorre em meio à definição da chapa do campo bolsonarista, que já apresenta formação considerada praticamente fechada:
-Professora Dorinha (União Brasil) como pré-candidata ao Governo;
-Eduardo Gomes (PL) para o Senado;
-Carlos Gaguim (União Brasil) ocupando a segunda vaga senatorial.
Com postos estratégicos preenchidos, Vicentinho Júnior teria ficado sem espaço dentro de seu próprio campo ideológico. A ausência de alternativas competitivas no grupo pró-Bolsonaro empurra o parlamentar para buscar novos arranjos, mesmo que estes contrariem sua base de apoio tradicional.
Uma movimentação pragmática ou oportunista?
Para interlocutores próximos às negociações, a aproximação de Vicentinho Júnior com a chapa de Laurez e Irajá revela uma estratégia estritamente pragmática: garantir uma vaga majoritária, especialmente ao Senado, onde há maior visibilidade e projeção política.
Contudo, a movimentação vem sendo vista por setores do PT e partidos aliados como um gesto de puro oportunismo eleitoral. Vicentinho, defensor de pautas da extrema direita e figura de confiança de Bolsonaro no Tocantins, estaria tentando, de forma explícita, se acomodar em um projeto político de centro-esquerda que não dialoga com sua atuação pública dos últimos anos.
Repercussões internas
Nos bastidores, lideranças que compõem a chapa de Laurez e Irajá avaliam com cautela a presença do deputado bolsonarista nas conversas. Há quem veja a tentativa como inviável, justamente por gerar ruídos dentro da base petista e da militância lulista no Estado, que dificilmente aceitaria dividir espaço com um nome conhecido por defender o bolsonarismo no Tocantins.
Para aliados históricos de Lula, a presença de Vicentinho na chapa seria um elemento de alta tensão política e poderia fragilizar a narrativa de coerência programática da coligação.
O movimento de Vicentinho Júnior expõe, de forma clara, o rearranjo de forças e a disputa por espaços que antecedem o período eleitoral no Tocantins. Sem campo no bolsonarismo, o deputado tenta se abrigar sob a articulação de Laurez Moreira e Irajá Abreu, mesmo que isso signifique atravessar fronteiras ideológicas que, até pouco tempo, pareciam intransponíveis.
Resta saber se a estratégia será bem-sucedida ou se representará apenas mais um capítulo de tensão no já complexo xadrez político tocantinense.
Como dizia meu saudoso editor Hércules Dias: “Quem viver verá!”
